Seleção

Não é mesmo a minha
trilhar o caminho certo,
andar na linha,
equilibrista no circo.

Olhado à distância,
o passado é uma mancha,
um feixe de nervos
e ânsias.

Não me pergunte
como saí vivo
da infância
e de tudo
que veio em sequência.

Outros encham a boca:
“viveria tudo
outra vez”.
Escolho os melhores dias
 e vivo só mais um mês.


Ricardo Silvestrin
Vida Tempo

Quem tem olhos pra ver o tempo

soprando sulcos na pele
soprando sulcos na pele
soprando sulcos?
 
o tempo andou riscando meu rosto

com uma navalha fina


sem raiva nem rancor

o tempo riscou meu rosto

com calma


(eu parei de lutar contra o tempo

ando exercendo instantes

acho que ganhei presença)


acho que a vida anda passando a mão em mim.

a vida anda passando a mão em mim.

acho que a vida anda passando.

a vida anda passando.

acho que a vida anda.

a vida anda em mim.

acho que há vida em mim.

a vida em mim anda passando.

acho que a vida anda passando a mão em mim


e por falar em sexo quem anda me comendo

é o tempo

na verdade faz tempo mas eu escondia

porque ele me pegava à força e por trás


um dia resolvi encará-lo de frente e disse: tempo

se você tem que me comer

que seja com o meu consentimento

e me olhando nos olhos


acho que ganhei o tempo

de lá pra cá ele tem sido bom comigo

dizem que ando até remoçando.


Viviane Mosé
diário de viagem

o poeta foi visto por um rio
por uma árvore
por uma estrada...

 Mário Quintana
Tratado geral das grandezas do ínfimo
 
A poesia está guardada nas palavras — é tudo que eu sei.

Meu fado é o de não saber quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não tenho conexões com a realidade.
Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas).
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado.
Sou fraco para elogios.


Manoel de Barros
TEMPO

no início era o começo.
o depois veio vindo devagar.
o antes veio depois do depois.
só quando esse se estabeleceu.
no princípio era o agora.
isso demorou até que
tudo virou antes e depois.
então uma revolução peluda
o agora voltou ao trono.
antes e depois viraram
falta do que fazer.
e tanto fizeram
que o agora virou tudo
e o tudo, nada.
de volta ao princípio
o agora congelou.
o antes fica pra depois.

Chacal
          todo es muy simple

          todo es muy simple mucho

          más simple y sin embargo
          aún así hay momentos
          en que es demasiado para mí
          en que no entiendo
          y no sé si reírme a carcajadas
          o si llorar de miedo
          o estarme aquí sin llanto
          sin risas
          en silencio
          asumiendo mi vida
          mi tránsito
          mi tiempo.
         
          idea vilariño
                               Da Minha Aldeia

Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no Universo…
Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não, do tamanho da minha altura…
Nas cidades a vida é mais pequena

Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.
Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave,
Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe 
de todo o céu,
Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos 
nos podem dar,

E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver.

Alberto Caeiro
"O Guardador de Rebanhos - Poema VII"
     Um Lance de Dados 
       "Un Coup de Dês"

Quero que saibam o valor 
Da canção, se de boa cor,
Que elaborei com meu calor:
Neste mister eu levo a flor,
     Ninguém me bate,
Irei prová-lo assim que for
     Dado o remate.

Conheço bem o senso e loucura,
Conheço honra e desventura,
Já senti pavor e bravura;
Mas se propõem jogo do amor
     Não fico atrás;
Escolho sempre o que é melhor
     Do que me apraz.

Conheço bem quem me quer bem
E sei quem me quer mal também,
Quem ri de mim, quem me convém,
E se de mim se achega alguém
     Sei muito mais:
Como saber prezar a quem
     Prazer lhe faz.

Bem haja aquele de onde vim,
Pois que soube fazer de mim
Alguém tão bom para esse fim;
Que eu sei jogar sobre coxim
     De qualquer lado;
Não há ninguém que o faça assim,
     Por mais dotado.

Bendigo a Deus e a São Julião
Por tão bem cumprir a missão
E jogar com tão boa mão.
Se alguém precisa de lição 
     Que venha logo:
As que vierem voltarão
     Sabendo o jogo.

Chamam-me "o mestre sem defeito":
Toda mulher com quem me deito
Quer amanhã rever meu leito;
Neste mister sou tão perfeito,
     Tenho tal arte,
Que tenho pão e pouso feito
     Por toda parte.

E não me digam que isto é prosa.
Ainda outro dia tive a prova,
Jogando uma partida nova.
Saí-me bem no meu primeiro
     Lance de dados;
Não vi os de nenhum parceiro
     Tão bem jogados.

Mas ela disse, com desprezo:
"Os vossos dados não tem peso,
Vos desafio a uma outra vez".
E eu: "Montpelier não vale o preço
     Destes pedaços".
E ergui-lhe o avental xadrez
     Com os dois braços.

Depois de erguer o tabuleiro,
     Joguei os dados:
Dois foram cair colados,
     E o terceiro

Feriu no meio o tabuleiro.
E estão lançados.

Mallarmé
Trad. A.C.




Hoje só quero ritmo.
Ritmo no falado e no escrito.
Ritmo, veio central da mina.
Ritmo, espinha-dorsal do corpo e da mente.
Ritmo, na espiral da fala e do poema.


Waly Salomão
                 fragmento 1

              pus meu coração de molho,
              em alto-mar,
              a absorver
              céu e sal e infinito.
             Karina Rabinovitz
                 "azuis os meninos que se embriagam de mar"






Ausência

Por muito achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a  falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

Drummond



Experiência

Colher experiência 
em florestas montanhas 
cidades

Nos olhos
das pessoas

Em conversas 
no silêncio

Rose Ausländer

Hay días que ni siquiera son oscuros
días en que pierdo el rastro de mi pena
y resuelvo las palabras cruzadas
con una rabia hecha para otra ocasión
digamos, por ejemplo, para noches de insomnio.

Días en que uno sabe que hace mucho era bueno
bah tal vez no hace tanto que salía la luna
limpia como después de un jabón perfumado
y aquello sí era auténtica melancolía
y no este malsano, dulce aburrimiento.

Bueno, esta balada es sólo para avisarte
que en estos pocos días no me tomes en cuenta.


Mario Benedetti


contranarciso


em mim
eu vejo o outro
e outro
e outro
enfim dezenas
trens passando
vagões cheios de gente
centenas

o outro
que há em mim
é você
você
e você

assim como
eu estou em você
eu estou nele
em nós
e só quando
estamos em nós
estamos em paz
mesmo que estejamos a  sós

paulo leminski
Possibilidades

Prefiro o cinema.
Prefiro os gatos.
Prefiro os carvalhos sobre o Warta.
Prefiro Dickens a Dostoiévski.
Prefiro-me gostando das pessoas
do que amando a humanidade.
Prefiro ter agulha e linha à mão.
Prefiro a cor verde.
Prefiro não achar
que a razão é a culpada de tudo.
Prefiro as exceções.
Prefiro sair mais cedo.
Prefiro conversar sobre outra coisa com os médicos.
Prefiro as velhas ilustrações listradas.
Prefiro o ridículo de escrever poemas
ao ridículo de não escrevê-los.
Prefiro, no amor, os aniversários não marcados,
para celebrá-los todos os dias.
Prefiro os moralistas
que nada me prometem.
Prefiro a bondade astuta à confiante demais.
Prefiro a terra à paisana.
Prefiro os países conquistados aos conquistadores.
Prefiro guardar certa reserva.
Prefiro o inferno do caos ao inferno da ordem.
Prefiro os contos de Grimm às manchetes de jornais.
Prefiro as folhas sem flores às flores sem folhas.
Prefiro os cães sem a cauda cortada.
Prefiro os olhos claros porque os tenho escuros.
Prefiro as gavetas.
Prefiro muitas coisas que não mencionei aqui
a muitas outras também não mencionadas.
Prefiro os zeros soltos
do que postos em fila para formar cifras.
Prefiro o tempo dos insetos ao das estrelas.
Prefiro bater na madeira.
Prefiro não perguntar quanto tempo ainda e quando.
Prefiro ponderar a própria possibilidade
do ser ter sua razão.
(Wisława Szymborska, em “Poemas”; tradução de Regina Prazybycien. Companhia das Letras, 2011)

                       Língua-Mar



A língua em que navego, marinheiro,
na proa das vogais e consoantes,
é a que me chega em ondas incessantes
à praia deste poema aventureiro.
É a língua portuguesa, a que primeiro
transpôs o abismo e as dores velejantes,
no mistério das águas mais distantes,
e que agora me banha por inteiro.
Língua de sol, espuma e maresia,
que a nau dos sonhadores-navegantes
atravessa a caminho dos instantes,
cruzando o Bojador de cada dia.
Ó língua-mar, viajando em todos nós.
No teu sal, singra errante a minha voz.

Adriano Espínola
 



Acordo de manhã com uma alegria secreta
vejo a luz com uma espécie de arrebatamento


Montesquieu
“Vou te fazer uma confissão: estou um pouco assustada.


 É que não sei aonde me levará esta minha liberdade.


 Não é arbitraria nem libertina. Mas estou solta.”


Clarice Lispector
Caminha e repara.
No mundo o mesmo segundo
que junta e separa.
A sombra da amendoeira
varre o chão de sol e poeira.


Adriano Espínola

Ismália

Quando Ismália enlouqueceu,
pôs-se na torre a sonhar...

Viu uma lua no céu,
viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar...

Queria subir ao céu,
queria descer ao mar...

E, no desvario seu,
na torre pôs-se a cantar...

Estava perto do céu,
estava longe do mar...

E como um anjo pendeu
as asas para voar...

Queria a lua do ceú,
queria a lua do mar...

As asas que Deus lhe deu
ruflaram de par em par...

Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar...

Alphonsus de Guimaraens

lembra o tempo
que você sentia
e sentir
era a forma mais sábia
de saber
e você nem sabia?

Alice Ruiz

¿Qué es poesía?, dices mientras clavas
en mi pupila tu pupila azul.
¿Qué es poesía? ¿Y tú me lo preguntas?
Poesía ... ¡eres tú!

Gustavo Adolfo Bécquer


qué es poesía?
se preguntan miles y miles de personas
alrededor del mundo
em tutti the langues auf die mundo
poesia?
poesia é augusta
poesia é augusto

C.



O vero olho da terra é o cristal d'água

E não há no reino mineral

Nenhum poder de pedra que estanque

O jorro das gotinhas

Rasgando as entranhas da terra

Sedentas por ver o sol

Sedentas por ver o sol

Sedentas por ver o sol

Secas por vê-lo


caetano e wally salomão


Foto: Rogério Ferrari

no descomeço era o verbo.
só depois é que veio o delírio do verbo.
o delírio do verbo estava no começo, lá onde a
criança diz: eu escuto a cor dos passarinhos.
a criança não sabe que o verbo escutar não funciona
para cor, mas para som.
então se a criança muda a função de um verbo, ele delira.
e pois.
em poesia que é voz de poeta, que é a voz de fazer
nascimentos -
o verbo tem que pegar delírio.

manoel de barros
arte do chá

ainda ontem
convidei um amigo
para ficar em silêncio comigo

ele veio
meio a esmo
praticamente não disse nada
e ficou por isso mesmo

paulo leminski
-->
Tua pele mais profunda
Cada memória apaixonada tem suas madalenas e a minha - saiba disso, onde quer que você estiver - é o perfume do tabaco claro que me devolve à tua noite espigada, à lufada da tua pele mais profunda. Não o tabaco que se aspira, a fumaça que reveste as gargantas, e sim aquela vaga equívoca fragrância que o cachimbo deixa nos dedos e que em algum momento, em algum gesto despercebido, sobe com seu látego de delícias para encabritar a lembrança que tenho de ti, a sombra das tuas costas contra o branco velame dos lençóis.
Não me olhes aí da tua ausência com essa gravidade um tanto infantil que fazia do teu rosto uma máscara de jovem faraó núbio. Acho que sempre ficou bem entendido que nós só daríamos um ao outro o prazer e as festas leves do álcool e das ruas vazias da meia-noite. De ti tenho mais do que isso, mas na lembrança me voltas nua e derramada, nosso planeta mais precioso foi a cama em que lentas, imperiosas geografias iam nascendo das nossas viagens, de tantos desembarques amáveis ou resistidos, de comitivas com cestas de frutas ou flecheiros à espreita, e ganhamos cada poço, cada rio, cada colina e cada planície em noites extenuantes, em meio a obscuros parlatórios de aliados ou inimigos. Oh, viajante de ti mesma, máquina de esquecimento! e então passo a mão pela cara num gesto distraído e o perfume do tabaco em meus dedos te traz para me arrancar outra vez deste presente costumeiro, te projeta antílope na tela desse leito onde vivemos os intermináveis caminhos de um efêmero encontro.
Eu aprendia contigo linguagens paralelas; a dessa geometria do teu corpo que me enchia a boca e as mãos de teoremas trêmulos, a da tua fala diferente, tua língua insular que tantas vezes me confundia. Com o perfume do tabaco me volta agora uma lembrança precisa que abarca tudo num instante que é como um vórtice, sei que disseste: "Sinto pena", e eu não entendi, porque pensava que nada pudesse te dar pena nessa teia de carícias que fazia de nós um novelo branco e preto, lenta dança em que um pesava sobre o outro para depois se deixar invadir pela leve pressão de músculos e braços girando molemente e deslizando-se até se enovelar outra vez e repetir as quedas do alto ou do fundo, ginete ou potro, arqueiro ou gazela, hipogrifos defrontados, golfinhos no meio do pulo. Então aprendi que, em tua boca, pena era um outro nome do pudor e da vergonha, e que não te decicias à minha nova sede que já tinha saciado tanto, que me rejeitavas implorando com essa maneira de esconder os olhos, de encostar o queixo na garganta para só me deixar na boca o ninho negro dos teus cabelos.
Disseste: "Sinto pena, sabe", e deitada de costas me olhaste com olhos e seios, com lábios que traçavam uma flor de lentas pétalas. Tive que dobrar teus braços, murmurar meu último desejo com o correr das mãos pelas mais doces colinas, sentindo que cedias pouco a pouco e te viravas de lado até render o sedoso muro das tuas costas onde uma omoplata miúda tinha algo de asa de anjo maculado. Sentias com pena, e dessa pena ia nascer o perfume que agora me devolve à tua vergonha antes que o outro acorde, o último, nos erga numa mesma e estremecida réplica. Sei que fechei os olhos, que lambi o sal da tua pele, que desci derrubando-te até sentir em teus rins o estreitamento da jarra onde as mão se apóiam em ritmo de oferenda; em algum momento cheguei a perder-me na passagem desviada e apertada que se negava ao gozo dos meus lábios enquanto lá dos confins, do teu país de cima e de longe, tua pena murmurava uma última defesa abandonada.
O perfume do tabaco claro nos dedos traz de volta o balbucio, o tremor desse obscuro encontro, sei que minha boca buscou a oculta boca estremecida, o lábio único restringindo-se ao teu medo, o ardente contorno rosa e bronze que te entregava à minha viagem mais extrema. E como sempre ocorre, não senti nesse delírio o que a lembrança me traz agora em um vago aroma de tabaco, é que essa musgosa fragrância, essa canela de sombra faz seu caminho secreto a partir do esquecimento necessário e instantâneo, indizível jogo da carne que esconde da consciência aquilo que impulsiona as mais densas, implacáveis máquinas do fogo. Tu não eras sabor nem cheiro, teu país mais escondido se entregava como imagem e contato, e só hoje uns dedos casualmente manchados de tabaco me devolvem o instante em que me ergui sobre ti para lentamente exigir as chaves da passagem, forçar o doce trecho em que a tua pena tecias as últimas defesas, agora que com a boca mergulhada no travesseiro soluçavas uma súplica de escura aquiescência, de derramado cabelo. Mais tarde entendeste e não havia mais pena, me cedeste a cidade da tua mais profunda pele de tanto horizonte diferente, depois de fabulosas máquinas de sítio e parlatórios e batalhas. Neste vago amarelo de tabaco que hoje me mancha os dedos acorda a noite em que tiveste tua primeira, tua última pena. Fecho os olhos e aspiro no passado esse perfume da tua carne mais secreta, gostaria de não abrí-los neste agora em que leio e fumo e ainda acredito estar vivendo.

Julio Cortázar